
Comer o Sanar: Una disyuntiva cruel
@camelia28
Posted 5d ago · 9 min read
Publicado en Español, Inglés y Portugués.
Editado en PhotoCollage
Hola, buenas noches y dulces sueños.
Hace dos días toqué este mismo tema, pero ahora lo hago desde la realidad de la mayoría en este, nuestro planeta.
Hay una conversación que casi nunca aparece en los círculos de bienestar. Se habla de heridas, de constelaciones, de sanar al niño interior. Pero nadie menciona los precios.
Una sesión de terapia ronda los 60 u 80 euros. Un retiro de fin de semana, entre 300 y 600. Un curso online de crecimiento personal, desde 150 hasta más de mil. Y eso si no se añaden los libros, las aplicaciones de pago, los talleres presenciales. Ahora conviértelo a tu moneda y verás que sanar así se vuelve una quimera.
Para una persona con recursos ajustados, esas cifras son directamente inalcanzables.
El problema no es que existan servicios de pago. El problema es que el discurso dominante actúa como si fueran la única vía.
Queda fuera de la foto una realidad enorme, esa de quienes eligen entre pagar un terapeuta o llenar la nevera. Y lamentablemente esa realidad no es minoritaria. Es la norma en la mayor parte del mundo.
Cuanto menos dinero se tiene, más estrés se acumula. Más trauma estructural. Más necesidades básicas insatisfechas. Es decir, más motivos para necesitar acompañamiento.
Pero cuanto menos dinero se tiene, menos acceso hay a ese acompañamiento.
La persona de bajos recursos no puede permitirse diez años de introspección guiada. No puede probar cinco terapeutas diferentes hasta encontrar el adecuado. No puede darse el lujo de "explorar su proceso sin prisas".
Su proceso tiene prisas. Porque la vida apremia. Porque las facturas llegan cada mes.
Entonces, ¿qué queda?
Queda lo gratuito. Que no es poco, aunque la industria del bienestar lo invisibilice.
Queda una amiga que escucha sin cobrar, un grupo de apoyo mutuo sin certificado ni cuota o caminar media hora al aire libre. También, respirar con conciencia antes de explotar, escribir en un cuaderno de 1 dolar o simplemente llorar sin tener que etiquetar el llanto como "liberación somática".
Va quedando, sobre todo, el permiso para no estar en modo "trabajo interno" todo el tiempo. Porque a veces sanar es simplemente sobrevivir y sobrevivir ya es bastante heroico.
Existe una verdad que incomoda a algunos y es que el desarrollo personal se ha convertido, en gran medida, en un mercado. Y como todo mercado, tiene filtros de entrada. El precio es uno de ellos.
Eso no significa que todos los terapeutas o cursos sean un fraude. Muchos hacen un trabajo necesario y ético que sana de verdad, pero el ecosistema en su conjunto favorece a quien puede pagar y excluye a quien no.
La persona de bajos recursos no está "menos evolucionada" por no haber hecho una constelación familiar. No está "atrasada" por no tener terapeuta. Simplemente está jugando en otro tablero.
Si puedes pagarlo, bien. Si no puedes, tampoco estás condenado a no sanar nunca.
La sanación más profunda puede ocurrir en una conversación de cocina. Un silencio compartido también es una opción o nada más que en la decisión de seguir un día más sin entender nada.
Eso no cuesta nada. Y sin embargo, lo es casi todo.
No todo el bienestar se vende. Parte de él se regala en los gestos pequeños.

ENGLISH
Hello, good evening, and sweet dreams.
Two days ago I touched on this same topic, but now I'm addressing it from the reality of the majority on this, our planet.
There's a conversation that almost never appears in wellness circles. They talk about wounds, about constellations, about healing the inner child. But no one mentions the prices.
A therapy session costs around 60 or 80 euros. A weekend retreat, between 300 and 600. An online personal development course, from 150 to over a thousand. And that's without adding books, paid apps, or in-person workshops. Now convert that to your currency, and you'll see that healing this way becomes a chimera.
For someone on a tight budget, those figures are simply unattainable.
The problem isn't that paid services exist. The problem is that the dominant discourse acts as if they are the only way.
A huge reality is left out of the picture: that of people who choose between paying for a therapist or filling the fridge. And unfortunately, that reality isn't a minority. It's the norm in most of the world.
The less money you have, the more stress builds up. More structural trauma. More unmet basic needs. In other words, more reasons to need support.
But the less money you have, the less access you have to that support.
A low-income person cannot afford ten years of guided introspection. They cannot try five different therapists until they find the right one. They cannot afford the luxury of "exploring their process without rushing."
Their process is rushed. Because life is urgent. Because bills arrive every month.
So what's left?
What's left is what's free. And that's not nothing, even if the wellness industry makes it invisible.
What's left is a friend who listens without charging, a mutual support group with no certificate or fee, or a half-hour walk outdoors. Also, breathing mindfully before exploding, writing in a one-dollar notebook, or simply crying without having to label the crying as "somatic release."
What's left, above all, is permission not to be in "inner work" mode all the time. Because sometimes healing is simply surviving, and surviving is already heroic enough.
There's a truth that makes some people uncomfortable: personal development has become, to a large extent, a market. And like any market, it has entry filters. Price is one of them.
That doesn't mean all therapists or courses are fraudulent. Many do necessary and ethical work that truly heals. But the ecosystem as a whole favors those who can pay and excludes those who cannot.
A low-income person is not "less evolved" for not having done a family constellation. They are not "behind" for not having a therapist. They are simply playing on a different board.
If you can afford it, fine. If you can't, you're not condemned to never heal.
The deepest healing can happen over a kitchen conversation. A shared silence is also an option. Or simply in the decision to go on one more day without understanding anything.
That costs nothing. And yet, it's almost everything.
Not all wellness is sold. Part of it is given away in small gestures.

PORTUGUÉS
Portuguese
Curar com pouco: quando o desenvolvimento pessoal não cabe no orçamento
Olá, boa noite e bons sonhos.
Há dois dias toquei neste mesmo tema, mas agora faço-o a partir da realidade da maioria neste, nosso planeta.
Há uma conversa que quase nunca aparece nos círculos do bem-estar. Fala-se de feridas, de constelações, de curar a criança interior. Mas ninguém menciona os preços.
Uma sessão de terapia ronda os 60 ou 80 euros. Um retiro de fim de semana, entre 300 e 600. Um curso online de crescimento pessoal, desde 150 até mais de mil. E isto sem acrescentar os livros, as aplicações pagas, os workshops presenciais. Agora converta para a sua moeda e verá que curar assim se torna uma quimera.
Para uma pessoa com recursos limitados, esses valores são diretamente inalcançáveis.
O problema não é que existam serviços pagos. O problema é que o discurso dominante age como se fossem a única via.
Fica de fora da foto uma realidade enorme, aquela de quem escolhe entre pagar um terapeuta ou encher o frigorífico. E infelizmente essa realidade não é minoritária. É a norma na maior parte do mundo.
Quanto menos dinheiro se tem, mais stress se acumula. Mais trauma estrutural. Mais necessidades básicas insatisfeitas. Ou seja, mais motivos para precisar de acompanhamento.
Mas quanto menos dinheiro se tem, menos acesso há a esse acompanhamento.
A pessoa de baixos recursos não pode permitir-se dez anos de introspeção guiada. Não pode testar cinco terapeutas diferentes até encontrar o adequado. Não pode dar-se ao luxo de "explorar o seu processo sem pressa".
O seu processo tem pressa. Porque a vida aperta. Porque as contas chegam todos os meses.
Então, o que resta?
Resta o que é gratuito. E não é pouco, embora a indústria do bem-estar o invisibilize.
Resta uma amiga que ouve sem cobrar, um grupo de apoio mútuo sem certificado nem quota, ou caminhar meia hora ao ar livre. Também, respirar com consciência antes de explodir, escrever num caderno de 1 dólar ou simplesmente chorar sem ter que rotular o choro como "libertação somática".
Vai ficando, acima de tudo, a permissão para não estar em modo "trabalho interno" o tempo todo. Porque às vezes curar é simplesmente sobreviver, e sobreviver já é bastante heroico.
Existe uma verdade que incomoda alguns: o desenvolvimento pessoal tornou-se, em grande medida, um mercado. E como todo o mercado, tem filtros de entrada. O preço é um deles.
Isso não significa que todos os terapeutas ou cursos sejam uma fraude. Muitos fazem um trabalho necessário e ético que realmente cura. Mas o ecossistema no seu conjunto favorece quem pode pagar e exclui quem não pode.
A pessoa de baixos recursos não está "menos evoluída" por não ter feito uma constelação familiar. Não está "atrasada" por não ter terapeuta. Simplesmente está a jogar noutro tabuleiro.
Se pode pagar, tudo bem. Se não pode, também não está condenado a nunca curar.
A cura mais profunda pode acontecer numa conversa de cozinha. Um silêncio partilhado também é uma opção. Ou simplesmente na decisão de continuar mais um dia sem perceber nada.
Isso não custa nada. E no entanto, é quase tudo.
Nem todo o bem-estar se vende. Parte dele é oferecido nos pequenos gestos.

